segunda-feira, 5 de junho de 2017

O Artesanato como Terapia - Uma história de Recuperação

ARTESANATO TERAPÊUTICO
Artesanato terapêutico – Quando eu era pequeno, bem pequeno, acho que tinha entre três e quatro anos de idade, não consigo precisar, porque as lembranças são flashs raros, mas um momento foi marcante na vida da minha família. Antes, vou descrever um pouco o ambiente para situar você no tempo e no espaço.

UM POUCO DA MINHA HISTÓRIA

 Minha mãe (hoje com 75 anos) começou a trabalhar aos 18 como aprendiz de cabeleireira. Isso foi um impropério para o meu avô – homem de costumes rígidos -, ainda mais em 1960. Mas minha mãe se impôs e prosseguiu no seu objetivo.
Há 57 anos ela desempenha sua atividade. É uma das poucas profissionais do ramo que continua não acumulando posses, porque, na maior parte do tempo, sempre cobrou pouco pelos serviços. Houve épocas em que até trocou por produtos como frutas, legumes, entre outros.


Mas houve um período em que ela parou. Foi neste período a que eu me referi. Nós morávamos em uma cidade e meu pai passou a trabalhar em outra, próxima, mas, naquele tempo, era um espaço de deslocamento considerável. Por isso vendeu a casa que tínhamos e comprou outra na outra cidade. Então, com três filhos pequenos e uma sobra de dinheiro (na compra e venda de casas), os dois (meus pais), decidiram que ela ficaria cuidando de nós, afinal era um lugar novo e não tinha clientes.
Isso aliado a outros problemas (meu pai tinha um trabalho, mas fazia bicos de garçom e de árbitro de futebol, além de ter voltado a estudar à noite), acabou gerando muito stress para minha mãe, que naquele tempo não tinha esse nome e era diagnosticado como algo próximo de “esgotamento nervoso”.
Por causa disso minha mãe teve que ser internada em um hospital psiquiátrico, como se chamaria hoje. Lembro, em meus lapsos de memória de um dia termos ido visitá-la. Meu pai nos levou de ônibus porque era em outra cidade, ainda mais longe. Tenho viva a memória dela saindo pela entrada central do local, descendo correndo os poucos degraus e vindo até nosso encontro na cerca – a visita precisava ser do lado de fora. Ela era uma jovem mulher (na casa dos 30 anos), muito bonita.
Tínhamos levado biscoitos e lanche, porque a viagem demorava e não havia muito dinheiro para gastar. O que havia precisava ser usado para pagar a internação. Naquela viagem de volta, de pé no ônibus lotado (era domingo), eu pesei mal e vomitei no colo do meu pai.
Foi um período em que meu pai teve que cuidar de nós, sozinho. Tinha uma moça que era da vizinhança que ficava com a gente durante o dia, até meu pai voltar do trabalho. Ele parou de estudar. Não lembro quanto tempo que minha mãe ficou internada. Lembro-me de ver meu pai, uma noite, atordoado com três crianças pequenas agitadas, chorar encostado no armário da cozinha. Foi a primeira vez que o vi chorar. Ah! Lembro, também, da volta pra casa.


Mais do que a volta, do que minha mãe trouxe consigo. Uma máquina de fazer tricô, manual.
Logo começou a produzir casacos, coletes, blusas, cachecóis e muitos outros artigos, para nós e para encomendas. Até minha tia, (irmã da minha mãe), também aprendeu com ela e começou a produzir.
No tratamento foi recomendada a ocupação do tempo com uma atividade laboral – artesanato terapêutico – que a mantivesse em exercício mental constante.
Algum tempo depois, ganhamos mais um irmão e lembro que minha mãe fez todo o enxoval em tricô (lã e linha). Muita gente que morava na vizinhança – e também na cidade -, começou a procurar minha mãe e fazer pedidos de peças em tricô. É uma imagem viva na minha mente, minha mãe tirando medidas e anotando nos modelos desenhados no caderno.
Tempos depois, além do tricô, minha mãe também voltou à atividade de cabeleireira – que segue até hoje. O tricô parou em algum momento do tempo passado, mas só depois que a sua vocação falou mais alto.
O artesanato já é instrumento terapêutico desde que o mundo é mundo. Falo aqui algo entre 1969 e 1972 (mais ou menos), mas antes disso já era praticado e até servia como um meio de subsistência.
Essa é uma história que eu vivi. Não me foi contada, tão pouco lida. É claro que só muito tempo depois que eu pude entender o que aconteceu naquele tempo, mas tenho convicção, hoje, que o artesanato fez isso com minha mãe: Trouxe de volta o seu sossego.
Artesanato terapêutico.
Essa é a minha história com o artesanato e qual é a sua?

Atenciosamente
Xixo Murara - Diretor Literário da Feltro Fácil.

Um comentário:

  1. Oi, não comecei por acaso no mundo do artesanato, desde pequena via minha mãe confeccionar flores de seda e a ajudava muito cortando os tecidos engomadinhos que pareciam papel, depois ela golfrava e montava as flores e fazia cada arranjo lindo... Como eu estudava pela manhã e minhas irmãs à tarde ela passou a me levar em todo curso de artesanato que frequentava: bordado, bolos, todo tipo que havia de graça, lá estava minha mãe e eu. Com meus 16 anos resolvi vender sanduíche natural na Paria de Ponta Negra e como não se vendia refrigerante apelei para o chá mate com limão... Arrebentei e com o meu primeiro dinheirinho comprei forminhas de acetato, gesso, fitas, florezinhas de goma, tintas e dei início ao meu primeiro negócio: enfeites de quarto de bebê em gesso... Pouco tempo depois estava louquinha com as encomendas, até arrumei uma ajudante para dar conta rsrsrs De lá para cá são 32 anos alegrando a vida de tanta gente com meus artesanatos!!

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